BIOGRAFIA: João Huss (1373-1415)
Nascido no ano de 1373, em Hussinec, na Boêmia, atualmente a Tchecoslováquia. Sua família era humilde que vivia basicamente da agricultura. Apesar das dificuldades Huss recebeu uma educação memorável chegando a cursar na Universidade de Praga onde terminou seu curso de Letras no ano de 1396, dois anos depois começou a ensinar na Universidade, e finalmente chegou a ser o Reitor.
Nesta época eram comuns a corrupção moral do clero, sendo algo emergencial uma reforma eclesiástica, e foi durante estes anos que muitas idéias de Wycliffe influenciaram Huss.
 
Seus sermões atacavam a imoralidade e abusos dos clérigos, opunha-se à veneração do Papa ressaltando uma forte fé Cristocêntrica que responsabilizava o indivíduo diante de Deus. Acreditava somente que Cristo podia perdoar os pecados e esperava um dia de juízo vindouro. Suas pregações enfatizavam o poder transformador espiritual e moral que a palavra de Deus proporcionava na vida dos ouvintes. Sua ousadia era tanta que logo aquela capela se tornou o centro do movimento reformador, sendo reconhecido até pelo rei da Boêmia Venceslau IV, que o acolheu por seu confessor e lhe deu apoio.
 
João Huss ajudou a restaurar a visão bíblica que se concentrava nos ensinamentos de Cristo e no seu exemplo de pureza, deu ênfase no sacerdócio universal do crente, incentivou a inserção dos hinos congregacionais sendo que ele mesmo compôs vários deles. Para os tchecos, Huss foi mais que um líder espiritual, foi inspiração nacional nos séculos posteriores a sua morte.
 
Excomunhão de Huss da Igreja.
No ano de 1409, o Papa Alexandre V autorizou o Bispo de Praga erradicar a heresia de sua diocese, porém, quando veio pedir para Huss deixar de pregar, este se recusou e foi excomungado em 1410. Huss não se abalou e continuou a pregar mesmo contra a autoridade do Papa.
No ano de 1414, Huss foi intimado pelo Papa João XXIII a comparecer diante do Concílio de Constança sob promessa de salvo-conduto, porém, mesmo sabendo que corria perigo, Huss não queria perder a oportunidade de pregar a reforma.
Recebido com cortesia pelo Papa João XXIII, Huss insistiu que viera ali para expor sua fé diante do concílio, sendo com isto acusado ali mesmo de herege. Não aceitando a acusação, respondeu avidamente que preferia morrer a ser um herege, e exigiu que o convencessem, pelas Escrituras, de que o era, se caso fosse, iria se retratar.
No dia 5 de junho de 1415, Huss compareceu diante do Concílio sendo levado para a assembléia acorrentado e novamente acusado de herege por seguir as doutrinas de Wycliffe, respondendo Huss disse que “Wycliffe era um verdadeiro crente, e que sua alma estava agora no céu, e que não podia desejar maior salvação para a sua própria alma do que a que estava gozando a alma de Wycliffe”.
João Huss tentou sem sucesso expor suas opiniões diante do Concílio, o qual continuava pedindo para que se retratasse de suas doutrinas e se submetesse ao Concílio, porém, eles próprios recusavam-se a ouvir quais eram as doutrinas de Huss. O Cardeal Zabarella preparou um documento no qual exigia que Huss se retratasse de seus erros e aceitasse a autoridade do concílio. A resposta de Huss a esse documento foi firme: “-Apelo a Jesus Cristo, o único Juiz Todo-Poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um, não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e justiça”.
  Sentença de Morte contra Huss
     Depois disso, foi deixado por vários dias encarcerado numa masmorra úmida e imunda e com alimento escasso, esperando que com isso fosse enfraquecê-lo para fazer dele o que quisessem. Huss ficou gravemente doente enquanto esteve na masmorra e muitos foram visitá-lo pedindo para que se retratasse, mas Huss continuou firme.
No dia 6 de julho de 1415, Huss foi levado para a catedral de Constança e depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, pregado pelo bispo Lodi sobre o tema “Para que o corpo do pecado seja desfeito” (Rm 6.6), ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para que em seguida lhe arrebatassem a ambos, insinuando assim que Huss perdia suas ordens sacerdotais. Tomaram o cálice de suas mãos, dizendo: “Maldito Judas que, tendo abandonado o conselho da paz, entraste no dos judeus, arrancamos-te das mãos este santo cálice onde está o sangue de Cristo”. Em resposta a isto, Huss ergueu sua voz e disse: “confio pela graça de Deus que ainda hoje hei de beber dele no seu reino”. Os Bispos retorquiram então: “Nós entregamos a tua alma aos demônios do inferno”, ao que Huss respondeu “-E eu entrego o meu espírito em tuas mãos, ó Senhor Jesus Cristo; a ti entrego a alma que tu salvaste!”.
Passadas essas coisas, lhe cortaram o cabelo e lhe fizeram uma cruz na cabeça, por último lhe puseram uma coroa de papel que estava decorada com três demônios e o enviaram para a fogueira. Antes de ser queimado ele teve de passar por uma pira onde queimavam seus livros.
Mais uma vez lhe pediram que se retratasse, no que Huss negou com veemência. Chegando ao lugar de execução, não lhe foi permitido falar ao povo, mas a oração que fez enquanto estava sendo amarrado ao poste chegou ao ouvido de todos, dizendo: “Senhor Jesus, por ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”.
No último momento ainda tentaram induzí-lo a assinar uma retratação, porém sem sucesso.Então Huss levantou sua voz e disse: “Tudo o que escrevi e assinei foi com o fim de livrar as almas do poder do demônio, e livrá-las da tirania do pecado; e sinto alegria em selar com o meu sangue o que escrevi e assinei”. 
Depois de dizer isto, acenderam a fogueira, e segundo nos conta a tradição, Huss envolto pelas chamas proclamou em alto e bom som as seguintes palavras: “Hoje vocês estão matando um ganso, mas daqui a cem anos Deus levantará um cisne, o qual vocês não poderão matá-lo”.
Enquanto ainda orava e cantava salmos a Deus, decaiu-lhe a cabeça sobre o peito e uma nuvem de fumaça o sufocou. Huss obteve a coroa do martírio e partiu para estar com Jesus. Para este fiel servo de Deus, a morte fora sua carruagem que o levaria à presença do seu Cristo que ele fielmente professou.